sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Carnaval de lucros


A indústria bilionária da folia envolve um exército de empreendedores ainda carentes de organização e planejamento
Os desfiles de Carnaval marcam a apoteose de uma complexa cadeia de negócios envolvida na preparação da festa em todo o país. Desde o desmonte das estruturas de desfile até o planejamento do início da próxima temporada, empreendedores dos mais diversos setores lutam para garantir sua fatia nesta indústria. Todos os anos, artesãos, costureiras, mecânicos, eletricistas, arquitetos, bailarinos, coreógrafos, músicos e donos de lojas planejam ações para ampliar o faturamento que vem com folia. "É uma economia permanente que envolve desde o vendedor de sanduíche até o músico, passando por empresas importadoras de insumos e fabricantes de adereços", revela Heliana Marinho, gerente da área de desenvolvimento da economia criativa do Sebrae-RJ.

Mensurar o tamanho deste segmento é tarefa árdua. Os dados são dispersos e a informalidade grande. Alguns números levantados nos principais polos dão pista de que se trata de um mercado bilionário e composto por mão de obra intensiva. A empresa de turismo de Salvador (Saltur) calcula que R$ 1,07 bilhão em negócios foi gerado na capital baiana por conta do Carnaval em 2009. Deste total, mais de R$ 100 milhões respondem pelo consumo de bebidas. Já os bares, restaurantes e lanchonetes faturaram R$ 60,5 milhões durante a temporada. Ao todo, o Carnaval criou 220 mil postos de trabalho na cidade. A medição vai de outubro a fevereiro.
Em Pernambuco, a Secretaria de Turismo de Recife espera, para este ano, 700 mil foliões, que devem deixar na capital e na vizinha Olinda R$ 400 milhões. Considerando todo o Estado, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) estima gastos de R$ 101,2 milhões. "Estimamos que 2,2 milhões de pessoas brincarão o Carnaval pernambucano. O gasto médio dos foliões durante a festa no interior deve chegar a R$ 46,00", afirma Luciana Azevedo, presidente da Fundarpe.

Já no Rio de Janeiro, os números baseiam-se no estudo "Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval ", realizado com dados de 2006. Pelo levantamento, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços do Estado do Rio de Janeiro (Sedeis) estima que o Carnaval movimente mais de R$ 700 milhões por ano e mobilize 470,3 mil trabalhadores. "Estamos encontrando métricas para medir os negócios que são resultado do Carnaval . Para isso, apostamos na organização de arranjos produtivos locais para formalizar quem trabalha com este segmento", diz Dulce Angela Arouca Procópio de Carvalho, subsecretária de Estado de Comércio e Serviços.

O número parece tímido para a indústria carnavalesca mais madura do país. Mas o estudo é uma amostragem que avaliou apenas os gastos com escolas de samba do grupo especial (12 agremiações). Leva em conta as atividades diretas - que envolvem as ações necessárias para a realização do desfile - e indiretas, a exemplo das cadeias do turismo, audiovisual, editorial e indústria de alimentos e bebidas.
Para os cariocas, o Carnaval é um importante produto, que movimenta segmentos que estão além do grupo especial. Pelas expectativas da Riotur, empresa de turismo do município, 730 mil turistas devem visitar a cidade no feriado e gastar US$ 528 milhões. Para se ter uma ideia da importância da festa, a Riotur calcula que o saldo do verão inteiro (dezembro a março) será de 2,6 milhões de turista e renda de US$ 1,876 bilhão. No ano passado, o movimento foi de 719 mil turistas que gastaram US$ 521 milhões durante a festa.

Segundo a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), cada agremiação do grupo especial gasta em média R$ 5 milhões por ano. Chico Marins, diretor de cultura e desenvolvimento da escola de samba Porto da Pedra, diz que a renda total das escolas principais está na faixa de R$ 60 milhões e é gerada pelos próprios desfiles. Só a bilheteria neste ano deve render, segundo a Liesa, R$ 42 milhões. Desse total, 53,5% são distribuídos entre as agremiações, a outra fatia paga os custos com a realização do evento como aluguel do sambódromo, segurança etc. A Liesa ainda fatura com direitos de transmissão dos desfiles. "Há uma economia importante também no grupo de acesso - cujo número de escolas é de 60 - que ainda não conseguimos mensurar", destaca Heliana.

As escolas, que figuram como pessoas jurídicas, contratam costureiras - cada barracão mantém em média 300 profissionais para a confecção de fantasias -, marceneiros, carpinteiros, eletricistas, mecânicos, designers, carnavalescos, entre outros. "Temos de realizar um desfile com 3,5 mil componentes, construir carros alegóricos, organizar ensaios e ficar atentos a todos os detalhes", diz. "Mantemos no barracão o coração da escola e distribuímos para os prestadores de serviço o restante da produção", explica Marins. Na terceirização, ele ainda destaca boas oportunidades para historiadores e captadores de recursos. "Há muita pesquisa envolvida e a busca por patrocínio já está profissionalizada."

Heliana estima que um carnavalesco ganhe entre R$ 200 mil e R$ 300 mil por ano. Este atrai uma cadeia artística que envolve designers, coreógrafos, puxadores de samba, compositores e músicos. Esses profissionais, juntamente com as celebridades, consomem boa parte do orçamento reservado para mão de obra. "A maioria dos envolvidos (90%) tem renda mensal de um salário mínimo", comenta.

Para ampliar a renda, o governo fluminense prevê a estruturação administrativa e financeira das escolas de samba e dos polos de produção de artigos para o Carnaval . Entre os arranjos na mira da Sedeis e do Sebrae estão o de bordados em Barra Mansa, o de máscaras em Barra do Piraí e o de sapatos, em São João do Meriti. Nessas localidades, o foco está na qualificação profissional e na formação de cooperativas. "Em Barra Mansa, são 800 bordadeiras que pretendemos engajar", diz Dulce Angela.

A estratégia anima profissionais como Sandra Maria Anastácia, bordadeira de Barra Mansa que ainda lucra pouco com a festa. Segundo ela, a demanda por bordados de fantasias aumenta entre setembro e fevereiro. "Consigo faturar apenas R$ 120,00 por mês bordando fantasias. Em cooperativa, conseguiria negócios melhores."

Na Bahia, o arquiteto Renato Bittencourt Neto fatura com a montagem de camarotes. Segundo ele, 40% de sua renda anual (estimada em R$ 500 mil) já está relacionada ao Carnaval.


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