quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Fator Acaso - Invenções

Muitas descobertas e invenções acontecem por acidente: sem querer, o pesquisador encontra a solução que não estava nem procurando. Isso tem um nome peculiar: serendipidade.
Muitas descobertas e invenções acontecem por acidente: sem querer, o pesquisador encontra a solução que não estava nem procurando. Isso tem um nome peculiar serendipidade:


Thomas Alva Edison (1847-1931), o mais prolífico dos inventores, com 1903 patentes em seu nome, tinha uma visão desconcertante da genialidade. Ela é 1% inspiração e 99% transpiração, dizia, numa frase que ficou famosa, o incansável experimentador que deu ao mundo a lâmpada elétrica e o fonógrafo, para mencionar apenas suas invenções mais populares. Mas o que fazia Edison transpirar? Segundo uma versão, a surdez parcial de que ele padecia influenciou fortemente sua conduta e carreira, criando motivações para muitas de suas invenções, como assegura a veneranda Enciclopédia Britânica. O exemplo de Edison mostra como podem ser tortuosos os caminhos da criação na ciência e na tecnologia. A coleção de anedotas em torno das grandes descobertas e inovações científicas sugere à primeira vista que o processo é completamente casual e caótico e, sendo único em cada caso, não forneceria uma fórmula segura para entendê-lo e praticá-lo.

A rigor, não é bem assim, mas o célebre episódio envolvendo o alemão Friedrich August Kekulé (1829-1896) parece talhado sob medida para sustentar aquela idéia. Considerado o pai da Química Orgânica estrutural, ele andava atormentado com a estrutura do benzeno, molécula-chave dos compostos orgânicos. Os cientistas não conseguiam imaginar como seis carbonos e seis hidrogênios podiam fazer uma ligação estável formando uma molécula, porque achavam que os átomos se ligavam numa espécie de fila indiana. Um dia Kekulé foi acordado no momento em que sonhava com uma serpente que engolia a própria cauda. Sigmund Freud (1856-1939), criador da Psicanálise e do conceito de símbolo fálico, pensaria em outra coisa, mas Kekulé viu prontamente que o sonho continha a solução do problema que o afligia: em vez de fila indiana, uma molécula em forma de anel fechado.

A Química está repleta de acidentes que resultaram em grandes achados. Um dos mais notáveis acaba de completar cinqüenta anos. No dia 15 de maio de 1940, as lojas de Nova York foram invadidas por multidões femininas ávidas pela primeira compra de meias de náilon 4 milhões de pares foram vendidos em poucas horas. No entanto, esse nunca por demais louvado aperfeiçoamento da anatomia feminina, com certeza o maior em toda a história do Homo sapiens sapiens, nasceu do acaso. O náilon era apenas um dos inumeráveis polímeros testados pela Du Pont, posto de lado, sem ser patenteado, por ter um ponto de fusão baixo. O químico Julian Hill, brincando com esse rejeito industrial, enfiou um bastão de vidro no composto e, ao retirá-lo, notou que se formavam fiapos muito delgados que secavam com a aparência de fios de seda. No processo de espichamento a frio, formavam polímeros uma cadeia molecular longa, linear e resistente como as fibras naturais produzidas em escassa quantidade pelo bicho-da-seda.

Outras vezes pesquisadores descobriram coisas completamente diferentes do que buscavam. O inventor americano John Wesley Hyatt (1837-1920) perseguia febrilmente uma maneira de fazer bolas de bilhar sintéticas, para substituir o produto fabricado com o caro marfim. Ele chegou a uma bola muito boa, à base de nitrato de celulose, polpa de papel e serragem, que tinha porém um inconveniente desagradável: tacadas mais certeiras faziam explodir o nitrato, um dos componentes da dinamite. Isso eventualmente poderia tornar o jogo mais excitante, mas os apreciadores do esporte não gostaram e a bola de Hyatt foi um fracasso. Ele não desistiu. Patenteou o celulóide, o tipo de plástico que acabou se tornando matéria-prima milionária para a confecção de colarinhos, canetas, pentes, embalagens de toda natureza e substrato de filmes.

Um livro publicado em 1989 nos Estados Unidos, Serendipity Accidental discoveries in science ("Serendipidade descobertas acidentais na ciência", ainda não editado no Brasil), de autoria de Royston M. Roberts professor de Química na Universidade do Texas, arrola centenas desses achados casuais. A palavra serendipidade não consta dos dicionários da língua portuguesa. Vem do árabe Sarandib, antigo nome da Ilha do Ceilão, atual Sri Lanka. O termo foi empregado pela primeira vez pelo escritor inglês Horace Walpole (1717-1797) para designar o dom de achar coisas valiosas ou agradáveis não procuradas. Numa carta, Walpole comentou um conto de fadas persa, "Os três príncipes de Serendip", no qual eles "estavam sempre realizando alguma descoberta, por acidente ou sagacidade, de coisas das quais não estavam em busca". Daí, cunhou serendipity para expressar essas felizes descobertas.

Mas, ao mencionar a sagacidade como um dos caminhos para a descoberta, Walpole ilumina um pouco mais a questão, mostrando que a invenção nunca é puramente acidental e caótica. Como Louis Pasteur (1822-1895), o inventor da pasteurização e da vacina anti-rábica, disse certa vez, "o acaso só favorece a mente preparada". Ou seja, qualquer um pode sonhar com cobras (e aproveitar a deixa para jogar no bicho), mas na mente preparada do químico Kekulé pode-se dizer que o sonho já continha a metáfora da solução que ele tanto procurava. O estalo que teve ao despertar consistiu em decifrar a mensagem que ele próprio havia escrito. O argumento de Pasteur vale também para o leigo que espichasse o náilon gosmento nunca iria perceber a utilidade da coisa.

"As idéias não caem do céu como se viessem do nada", observa a professora Amélia Hamburger, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, uma estudiosa da História da Ciência. "É claro que há um componente aleatório no processo de descoberta e as pessoas devem estar atentas a todo instante para reconhecer uma coisa nova", argumenta ela. "Mas, fundamentalmente, tanto na técnica quanto na ciência, é necessário ter uma grande familiaridade com o assunto." Às vezes, coisas prosaicas podem fazer toda a diferença para a mente preparada. Em 1889, os alemães Joseph von Mering e Oscar Minkowski estavam estudando a função do pâncreas na digestão. Tiraram o órgão de um cachorro para ver o que acontecia. O cão, estropiado, continuou vivo, mas os pesquisadores notaram que a quantidade de moscas tinha aumentado muito no laboratório depois da operação. Um enxame delas disputava furiosamente a urina do animal. Em vez de demitir o subalterno que cuidava da higiene do local, a dupla resolveu estudar a urina do bicho e descobriu que ela estava inundada de açúcar, um sinal já conhecido do diabete.

Mering e Minkowski perceberam imediatamente que o pâncreas devia produzir alguma substância controladora do uso do açúcar no organismo. A insulina, que faltava na urina e no metabolismo do cão operado, foi descoberta finalmente em 1921 por Charles Best e Sir Frederick G. Banting, da Universidade de Toronto, Canadá. A descoberta, que melhorou a vida de milhões de diabéticos, poderia ter demorado muito mais se 32 anos antes dois pesquisadores não estivessem atentos para reconhecer uma coisa nova, como diz a professora Amélia no caso, as moscas que apareceram misteriosamente no laboratório.

O remédio mais popular da História, de seu lado, surgiu de um engano. Por volta de 1870, segundo o autor de Serendipity, o químico Felix Hoffman, da Bayer, estava procurando uma maneira de usar o fenol, um germicida, em infecções. Testou um extrato de uma planta da espécie Spiraea, que continha fenol. Nos primeiros experimentos a pílula de Hoffman não teve a menor utilidade no combate à infecção, mas os pacientes notaram que ela era boa para baixar a febre e para abrandar dores como as causadas pela artrite. A substância ativa do extrato era o ácido acetilsalicílico. Em homenagem à planta, o medicamento foi batizado de aspirina. É bem possível que a cura de muitas doenças esteja dormindo num frasco empoeirado em algum laboratório à espera de um acaso como o que ocorreu na descoberta da clorpromazina, substância psicoativa que foi testada como anestésico pré-operatório na década de 40.

Os franceses Jean Delay e Pierre Deniker ficaram surpreendidos com a "quietude eufórica" dos pacientes que tomavam a droga e resolveram experimentá-la em maníacos depressivos e esquizofrênicos. Foi uma revolução médica inesperada, acontecida do dia para a noite. A partir de então, pacientes esquizofrênicos, em fase mais branda da doença, puderam deixar os hospitais e levar uma vida quase normal. Essa descoberta que ninguém perseguia levou a outra, igualmente importante. Doses excessivas de clorpromazina, notaram os médicos, provocavam sintomas nítidos do mal de Parkinson, doença que atinge dramaticamente pessoas idosas. Já se sabia que o esquizofrênico tem uma superatividade de dopamina, um neurotransmissor, no cérebro. Se a clorpromazina reduz o efeito da dopamina e se ela provoca sintomas do mal de Parkinson em pessoas normais, então, logicamente, a doença é causada por uma escassez de dopamina. De fato, o uso de L-dopa, um precursor da dopamina, mostrou-se muito eficaz para minorar o sofrimento da moléstia.

Com o aparecimento dos grandes laboratórios químico-farmacêuticos, acidentes felizes desse tipo começaram a se multiplicar. Em abril de 1957, por exemplo, químicos do laboratório Hoffman-La Roche, na Suíça, receberam a ordem de abandonar as intermináveis experiências com variantes de substâncias químicas formadas por um ou mais anéis de carbono com átomos de nitrogênio. No momento de encerrar a rodada de experiências com tais drogas, um dos pesquisadores lembrou-se de que várias delas, sintetizadas dois anos antes, nunca tinham sido testadas. Daí surgiriam o Librium e o Valium, os tranqüilizantes mais receitados no mundo.

A lista de drogas descobertas dessa maneira é longa e inclui a ciclosporina, testada sem sucesso como anticancerígeno e arquivada por décadas até se mostrar a substância que viabilizou todo um novo capítulo da história da Medicina, como o remédio anti-rejeição que permitiu a rotina atual dos transplantes de órgãos. O AZT, a única droga efetiva até agora contra os sintomas da Aids, também foi um desses felizes equívocos nos primeiros testes era também um medíocre medicamento anticâncer. Uma importante descoberta pode ficar na obscuridade enquanto ninguém souber direito para que serve. É comum dizer que a necessidade é a mãe da invenção, mas um balanço histórico mostra que nem sempre isso é verdadeiro. Ninguém imagina um grande escritório moderno sem uma copiadora xerox. O americano Chester Carson inventou o processo xerográfico em 1938 e teve de andar seis anos em busca de um financiador. Não achou. Fundou sua própria empresa e somente vinte anos depois viu o invento comercializado.

Uma descoberta pode ficar décadas no limbo por uma variedade de motivos. A razão mais citada e na maioria das vezes falsa é de que grandes grupos industriais sabotam o aparecimento de novidades. Mas, pelo menos em um caso documentado, isso aconteceu. Em 1933, o americano Edwin Armstrong inventou o rádio de freqüência modulada (FM), que eliminava interferências e permitia a transmissão de sons em alta fidelidade. O dono da RCA Victor, David Sarnoff, amigo pessoal de Armstrong, rechaçou o invento unicamente porque a empresa não estava preparada para mudar seus enormes investimentos em transmissores de amplitude modulada (AM). Pior ainda, depois da Segunda Guerra Mundial as rádios FM começaram a proliferar e Armstrong enrolou-se em prolongadas batalhas judiciárias. Ao fim, as empresas, entre elas a RCA, foram condenadas a pagar-lhe mais de 20 milhões de dólares. Tarde demais porém. De desgosto, Armstrong havia se suicidado em 1954.


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