sábado, 20 de junho de 2009

Falta de inovação preocupa especialistas

Judy Estrin, 53, passou toda sua carreira no Vale do Silício, uma região cuja prosperidade depende da constante inovação. Estrin, antiga vice-presidente de tecnologia da Cisco Systems, fundou quatro empresas de tecnologia.



Mas ela está profundamente preocupada com o Vale do Silício - e com os Estados Unidos como um todo -, porque acredita que eles já não estejam fomentando o tipo de inovação necessária a desenvolver tecnologias revolucionárias e sustentar o crescimento da economia.
"Eu não me vejo como alarmista, em geral, mas tenho me preocupado mais e mais com o estado de nosso país e da inovação nele", ela disse na semana passada, explicando por que havia escrito um livro sobre como recuperar essa capacidade de inovação, que será lançado na terça-feira. "Temos um déficit nacional de inovação".
O livro de Estrin, Closing the Innovation Gap, é o mais recente apelo a ação entre os lançados por cientistas, especialistas em tecnologia e políticos preocupados com a futura competitividade da tecnologia norte-americana, nos últimos anos.
Em 2005, a Academia Nacional de Ciências norte-americana publicou um relatório a pedido do Congresso no qual constatava que o financiamento federal às pesquisas nas ciências físicas em 2004 era 45% mais baixo que em 1976, e que 93% dos alunos de quinta a oitava série nas escolas norte-americanas aprendem ciências com professores que não têm diplomas ou certificados para lecionar os tópicos que ensinam. Em 2007, Innovation Nation, um livro do consultor de negócios John Kao, ajudou a renovar o debate.
E este ano ambos os candidatos à presidência fizeram do apoio do governo à inovação e tecnologia parte central de sua plataforma de campanha.
Ainda assim, nem todos os observadores da tecnologia concordam com Estrin quanto às dimensões do problema de inovação.
"A crise toda da inovação está sendo um pouco exagerada", disse Paul Saffo, cuja especialidade são previsões sobre tecnologia. Inovação no mundo natural, em forma de mutação, pode ser letal, de modo que as espécies só a promovem quando estão sob ameaça severa, ele disse. "O que fez do Vale do Silício um lugar único é que tenha encontrado por acidente um modo de sustentar a inovação mesmo quando tudo está correndo bem", ele afirmou.
Estrin argumenta que a preocupação com o curto prazo e a relutância em assumir riscos estão causando um atraso considerável na inovação. Ela menciona a contribuição de diversos fatores. Um declínio nas verbas federais e no financiamento de pesquisas pelas universidades fez cair o número de idéias novas, ela afirma. E quando a pesquisa produz novas tecnologias, os empresários e os especialistas em capital para empreendimentos que as apóiam vêm sendo cautelosos demais quanto a apostar alto, especialmente depois das dispendiosas falências geradas pela crise da Internet no começo da década. Se as empresas iniciantes encontram financiamento, ela alega, novos regulamentos tornam mais difícil o seu crescimento, e a concentração dos investidores em desempenho de curto prazo desencoraja as empresas a assumir riscos.
As sugestões de Estrin para a estimular a inovação variam de idéias vagas, como aconselhar os empresários e profissionais de capital para empreendimentos a assumir mais riscos, a idéias bastante específicas, como aumentos compulsórios nos salários dos professores.
Algumas de suas receitas dificilmente se tornarão realidade, como a idéia de um órgão público que se inspiraria no banco central e determinaria a política científica sem interferência do Congresso.
Alguns pensadores da inovação concordam com a avaliação de Estrin. "As pessoas vêm perceptivelmente se concentrando no curto prazo, e relutam em fazer apostas de longo prazo", disse Vinton Cerf, o principal especialista em Internet do Google.
Cerf conduziu o desenvolvimento dos protocolos de rede que formam a arquitetura básica da Internet, um projeto com o qual Estrin contribuiu quando era aluna de pós-graduação. Ele aponta para a Internet como exemplo da necessidade de pesquisa e financiamento de longo prazo, já que o desenvolvimento da tecnologia utilizada para transmitir dados online requereu duas décadas de apoio do governo.
Robert Compton, especialista em capital para empreendimentos e empresário, disse que os Estados Unidos estão sendo perdendo sua vantagem sobre a Índia e China em termos de inovação. As crianças chinesas e indianas são obrigadas a fazer mais cursos de ciências do que as norte-americanas, disse Compton, que recentemente produziu um documentário no qual compara a educação de segundo grau nos três países. Dos formandos do ensino superior, entre 30% e 45% têm diplomas de engenharia, na Índia e China, ante apenas 5% nos Estados Unidos. O capital para empreendimentos e os pedidos de patentes vêm caindo na Europa e nos Estados Unidos, e estão em ascensão na China e na Índia, ele afirma.
O mais alarmante, na opinião de Compton, é que 60% dos doutorados em engenharia concedidos por universidades norte-americanas são conferidos a alunos estrangeiros, que hoje já não optam por ficar no país e trabalhar. "A economia dos Estados Unidos não é mais tão atraente quanto a chinesa e a indiana, e muitos deles optam por voltar para casa", ele afirmou.
Estrin e outros reconhecem que a recente alta no financiamento de empresas de energia alternativa é sinal de que a inovação está viva e bem em determinados setores. Mas ela ainda assim está preocupada por os investidores talvez não demonstrarem a paciência requerida para promover o crescimento dessas empresas.
"Caso eles tratem essas companhias da mesma forma que trataram outras - dentro de dois anos, querem ver retornos ou reduzem as verbas e começam a demitir -, não vão nos levar até onde precisamos chegar", ela afirma.
Alguns dos observadores da inovação nos Estados Unidos dizem que esses alertas são desnecessários e que parecem semelhantes a queixas semelhantes que se provaram infundadas, em décadas passadas.
Um estudo conduzido pela RAND em junho constatou que 40% do investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento científico acontecem nos Estados Unidos. O país emprega 70% dos detentores mundiais de prêmios Nobel, e abriga 75% das 40 melhores universidades do planeta.
James Hosek, um dos co-autores do estudo, afirma que "os Estados Unidos continuam a ser o líder mundiais em ciência e tecnologia".
Mas Estrin diz boa parte das inovações que estão em uso agora foram concebidas décadas atrás, e comparou a situação a uma de árvore que parece crescer bem mas tem raízes podres.
"Boa parte do que temos é inovação de curto prazo, secundária, e as raízes da árvore não estão felizes", afirma.

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